Lacuna Corporation

Com freqüência, as pessoas me perguntam por que eu guardo tanta coisa. No processo de desencaixotamento da mudança, eu encontrei coisas absurdas, tipo um texto que escrevi para uma aula do Seben (Paulo Seben, o poeta) em que a Julia e a Karine conversavam sobre uma festa que a Julia tinha ido comigo e a Karine não. O diálogo era tão real que, quando mostrei pra elas, nós três ficamos na dúvida, nos perguntando se aquilo era a descrição de uma situação similar à realidade ou se era simplesmente uma transcrição da verdade. A Julia matou a charada dizendo que ela nunca perguntaria para a Karine como é uma pessoa de peixes porque ela conhece as características do signo. Outra coisa que achei foi um texto de uma outra amiga, algo sobre televisão, educação e publicidade (acho que era isso) escrito para a terceira cadeira de português da faculdade, no tempo em que ela não ignorava a existência do corretor ortográfico do word. Além disso, também achei uma carta que a Julia me escreveu na folha timbrada da marca de camisetas que criamos no segundo semestre e na qual ela lamentava que eu ia mudar de curso e trocar a Fabico pela Psicologia. Eu podia ficar a madrugada inteira contando tudo que eu encontrei desde que me mudei, mas não vou. Mas, tipo, eu nem lembrava mais de que tinha realmente pensando em mudar para a Psicologia em 2004, e muito menos de que eu tinha chegado ao ponto de me inscrever para o vestibular de 2006.

Foi depois desse e de outros episódios que cheguei a conclusão de que guardo tanta coisa para lembrar de mim mesma: do que fui há alguns anos, o que queria, o que pensava e o que sentia. E isso tudo também me fez pensar sobre as pessoas que jogam tudo aquilo que lembra outra pessoa no lixo. Tipo, ex-alguma coisa, saca? Eu até entendo que algumas mensagens do celular sejam apagadas, algumas camisetas não devolvidas doadas e algumas fotos guardadas, isso é realmente necessário algumas vezes, mas me pergunto o quão saudáveis e o quão eficazes são atitudes desse naipe. O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças tá aí para provar que tem coisas que não podem ser apagadas. Amor me parece uma delas, entre algumas outras.

Sabe, mesmo que tudo vá pro lixo: fotos, cartas, roupas, cds e livros, que se perca totalmente o contato com a tal pessoa - ainda que em tempos de orkut isso seja praticamente impraticável - é impossível deletar alguém. Pode-se tentar (e às vezes conseguir) tirar alguém da vida diária, mas da própria história, e às vezes, de si mesmo, não dá. Pode-se passar muito tempo sem pensar numa pessoa, sem ver a pessoa e até mesmo sem falar o nome dessa pessoa, mas em algum momento, por um instante que seja, algo vai te fazer lembra daquela pessoa simplesmente pelo simples fato de que ela faz parte do teu passado. E foi um pouco pensando sobre isso que fui ver o decepcionante O Passado - sobre o qual eu escreverei depois que ler o livro (eu devia ter desconfiado de um filme do Hector Babenco com atores espanhóis, incluindo o Gael): o quão prejudicial o passado pode ser para o futuro e o quão prejudicial o futuro pode ser para o presente?

Na época em que vi o filme, não cheguei a conclusão nenhuma, só fiquei indignada, visto que é bem ruizinho. Hoje, depois disso tudo aí em cima relatado, penso que as lembranças só são prejudiciais se elas forem transformadas em esperanças também: esperança de que, de alguma forma, o passado se repita: que uma viagem seja tão boa quanto foi aquela outra, que um amor seja tão grande como foi aquele, que uma festa seja tão divertida quanto aquela que nós três fomos, ou não. O passado nunca vai ser apagado, guardemos ou não seus vestígios, pois ele sempre existirá na memória (ao menos até uma certa idade). Logo, me pergunto: vale a pena não guardar certas coisas, ou pior, tentar destruír o que passou colocando tudo no lixo? Talvez não seja assim tão simples e eu esteja numa madrugada Pollyana, mas é que é tão mais divertido encontrar uma foto e sorrir sozinho sentado no chão do quarto. Se não for por isso, ao menos que seja pelo bem dos nossos biógrafos. Aqui, um print da logomarca que eu e as gurias citadas lá em cima criamos. Bom dia.  

                                   

4 Comments »

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  1. A saudade é alimento não perecível. Sorte que dá pra empacotar.

    Comment by carioca — March 24, 2009 @ 11:39 am

  2. olha, sabe que ao me mudar eu mantive todos (TODOS) os meus arquivos inúteis na casa da mãe, que é própria e tem espaço.

    um dia tenho vontade de rever tudo, especialmente meus poemas da adolescência, que estão todos (TODOS) guardados. Em cadernos, em contracapas de cadernos, etc.

    Sempre guardei pensando que um dia, poderia morrer num acidente e alguém poderia querer publicar. Bati na madeira, três vezes.

    Comment by Luís Felipe — March 27, 2009 @ 10:03 pm

  3. Já coloquei muita coisa fora, mas ainda tenho muitos papéis, agendas e fotos na casa da mãe. Acho que mais pensando que um dia, se eu ficar muito sozinha, as recordações possam me ajudar a segurar. sei lá, acho isso muito deprimente, mas no fundo acho que é por ai.

    Comment by Renata — March 28, 2009 @ 3:36 pm

  4. Emily, que toda essa reflexão não sirva de desculpa para tu guardar simplesmente TODOS os bichos de pelúcia que alguém já te deu na vida, aqueles brinquedinhos de apertar sujos e com cheiro de mofo, todos os cofres com desenhos de porquinho, cachorrinho, etc, que era moda dar de aniversário nos anos 90, enfim… tem coisas que a gente simplesmente TEM QUE SE LIVRAR!!!

    Os bilhetinhos eu deixo tu manter, afinal, ocupam pouco espaço. Mas quanto ao resto, se tu não doar, eu vou até a tua casa fazer uma limpa! E tenho dito!

    Comment by Elisa — June 3, 2009 @ 1:20 pm

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