Caos Calmo (2008)

O primeiro filme que vi em 2009 foi o italianíssimo Caos Calmo (2008), de Antonio Grimaldo. Antes de tudo, é preciso dizer que nunca tinha visto (ou não me lembro) um filme com o tal Nani Moretti, um cara que, pra mim, já entrou na lista dos melhores atores do mundo. De rosto bastante comum, típico italiano, o cara é ABSURDAMENTE expressivo. Não do tipo Jim Carey, cheio de caretas, mas de uma maneira bastante natural, verossímel e, o melhor de tudo, profunda. Mas não é dele que eu ia falar. Até porque nem posso, vi apenas um filme com ele que, aliás, fiquei sabendo, é diretor também. Então que depois de ver o filme e de digerí-lo bem, inclusive lendo resenhas sobre, cheguei a conclusão de que vi no filme aspectos completamente diferentes do que viu a maioria, aos menos dos críticos.

Enquanto quase todos chamam atenção para a reação calma do personagem, Pietro, ao caos da situação em que ele se encontra, qual seja, de ter se tornado víuvo da noite pro dia e ter uma filha de dez anos para criar, eu acredito que o caos calmo não é isso, ou SÓ isso. Sim, perder a mulher e ter uma filha para cuidar sozinho deve ser algo caótico, mas eu acho que a reação calma dele não é uma forma de fazer o luto, como diria nosso amigo Freud, mas também de ser sincero consigo mesmo. Ainda que eu tenha perdido o início do filme por questões de pipocas e coca-colas rolando pelo chão do cinema, acredito que a calma do personagem frente ao caos vai muito do além da superação da viuvez ou coisa que o valha. Óbvio que perder a mulher com que se é casado e se tem uma filha deve ser terrívelmente doloroso, e que para muitos pode parecer o fim da vida, mas, se ele já estava distante da família, e se ele já não a amava mais, como o filme deixa a entender em algumas partes, a calma não pode vir disso? 

Não que ele não sinta falta dela, que ele não sofra com a morte dela. Eu apenas acho que sim, a forma dele ELABORAR o luto é através da calma, tanto que ele deixa de ir para o escritório para ficar esperando a filha na praça em frente à escola, enquanto vê a vida passar sentado num banco, interagindo apenas com as pessoas que vão até lá ou até ele. A questão é que além de uma forma de reagir à perda, a calma dele é a calma de quem perdeu alguém importante, mas que também não era aquilo tudo, ó, amor da minha vida, não vivo sem ti. De início, pode parecer doloroso pensar que ele não sente tanto assim a morte da mulher mas, veja bem, por que ele teria que se desesperar se ele já não a amava mais, se o casamento já não dava certo? O grande soco no estômago do filme, pra mim, foi a sinceridade do personagem quanto ao seu sentimento. Pietro sofre muito mais preocupado com sua filha do que com a sua própria perda, no caso, da esposa. Nem overreacting, nem drama queen. Não é porque as pessoas esperam que se sofra numa situação dessas que efetivamente se vai sofrer. A calma dele está de acordo com o seu próprio caos.