Uma teoria bêbada do amor

Dia desses, filosofávamos sobre a vida quando, miraculosamente (ou seria embriagadamente?), chegamos à conclusão de que existem dois tipos de pessoas quando se trata de relacionamentos amorosos, as quais vou chamar aqui de “raposa” e “tartaruga”, nomes, aliás, bem adequados a essa tipificação. Acompanhe o desenrolar do não-raciocínio:

Certamente, muita coisa se perdeu em meio à fumaça dos cigarros e à espuma dos vários e rápidos chopes, mas, ainda assim, vou tentar explicar aquilo que considero ser a diferença BÁSICA dessa segmentação. “Raposa” é o tipo de pessoa que não serve para um relacionamento que se enquadra no que conhecemos popularmente por “casamento”. Morar junto, ter filhos, cachorros e gatos, adquirir bens e imóveis, dormir e acordar sempre com a mesma pessoa são coisas que não fazem o tipo raposa feliz. Ao menos não por muito tempo. A explicação é simples e simplista: o tipo raposa não gosta de rotina. O tipo raposa gosta da liberdade, do clichê do vento batendo no rosto em cima de uma moto ou de uma bicicleta mesmo. Ironicamente, o tipo raposa, é casado. Ao passo que a tartaruga, exemplar do outro tipo, é solteira, muito embora sonhe com um casamento. Não exatamente o que todos entendem por “casamento”, mas uma união estável e duradoura (ou apenas a crença de que será duradoura), entre pessoas que se amam e que pressupõe coisas como morar junto e dividir a cama e algumas contas e conflitos. O que difere a tartaruga da raposa é que ela não vê problema com a rotina. Até gosta. Para o tipo tartaruga, o amor não são as borboletas no estômago ou o coração palpitando algumas vezes por semana (ou mês ou ano) como é para a raposa. Para a tartaruga, o amor e, logo, o relacionamento, é uma maneira de descobrir o outro, é a cumplicidade que só se cria com o tempo e com a convivência. Bem, a partir disso, bastaria que a raposa e a tartaruga simplesmente trocassem de lugar para ficarem todos felizes para sempre, não é? É, mas não é assim que as coisas funcionam no mundo real. A tartaruga, que já foi casada, ou algo semelhante, teve também momentos em que desejou ter ou só experimentar ser do tipo raposa. Assim como, em algum momento, a raposa cansou da vida de raposa e acreditou que poderia ser uma tartaruga, casar com outra tartaruga (ou raposa?) e quem sabe até ter tartaruguinhas (óun) e, bem, casou.

Então que, analisando de fora e um pouco mais sóbria do que estávamos, penso que mais do que SER do tipo raposa ou do tipo tartaruga, ou ainda ser de um outro tipo que não pensamos por estarmos embriagados, ter ou não ter um relacionamento amoroso é uma questão de escolha (descobriu a América, rapá!). Tá, não é só isso: o que eu quero dizer é mais ou menos o que disse o Fipa há algum tempo atrás quando criou sua “teoria do amor moderno”. De acordo com essa teoria– que para o Felipe seria quase que uma teoria nitzscheneana do amor (!) – o amor só acontece quando as pessoas decidem querer o amor. Na opinião dele, e eu concordo, essa é uma forma de pensar o amor muito mais positiva e construtiva – e porque não dizer mais bonita – do amor do que muito do que nos apresentam ou mesmo que vivemos por aí. Existam ou não raposas ou tartarugas, ou mesmo toda a fauna quando o assunto são relacionamentos amorosos, o amor pode ser entendido (vivido, quem sabe?) como algo não tão natural, algo que não acontece por si só, que se é pra ser será, mas como um sentimento que precisa de ação.

Como a ressaca ainda paira no ar, me explico melhor através do Felipe: “Se parasse aí, Uma relação pornográfica [filme que deu origem a teoria dele] seria somente mais uma amostra do quanto a arte contemporânea identifica a aridez da vida inter-pessoal e esmigalha as últimas possibilidades de qualquer comunicação humana. Mas o filme vai além quando ouvimos a reflexão do personagem masculino: ‘Então eu estava apaixonado sim, queria amá-la sim. Mas sei que, caso houvesse de fato algo entre nós, se fosse um erro termos dito não um para o outro, algo teria acontecido. Algo teria acontecido e teria impedido de não ficarmos juntos’. Creio haver aí o que poderíamos chamar de uma teoria moderna do amor, uma vez que nela o amor é apresentado como algo não-natural, algo que não acontece por si só.” 

up-to-date: quer ler um troço SÉRIO sobre amor? Aqui!
(desconside a PÉSSIMA imagem de capa desse site aí, por favor…)

Amantes (1984)

Sempre que começo a escrever uma crítica, penso que não sei fazer crítica, especialmente de cinema. A verdade é que eu acho uma chatice textos em que o cara só fala da direção de arte, da direção de fotografia e da direção de atores. Não que essas direções não sejam importantes para um filme, claro que são; eu apenas acredito que um filme, antes de qualquer outra coisa, é uma forma de contar uma história e essa história também precisa ser criticada. Então que faz um tempo que quero escrever sobre alguns filmes que vi, mas fiquei refletindo se deveria ou não dividir impressões que podem ser bem pessoais em uma crítica e que em nada tem a ver com aquelas críticas de direções. Bom, mesmo estando em dúvida, resolvi publicar o que escrevi sobre Amantes (Love Streams, EUA, 1984). Goste quem gostar, do filme e do texto; quem está na chuva é pra se molhar, já diria o queridão Marcelo Jüchem (aliás, quando tu volta, hein, tchê?).

Bien, faz algum tempo, vi Amantes (Love Streams, EUA, 1984), do John Cassavetes. A escolha foi unicamente por ser um dos filmes do topo da lista dos melhores filmes da vida de uma pessoa cujo gosto cinematográfico me agrada. Antes, nunca tinha ouvido falar do cara; mas acho que veria o filme igual só pela sonoridade do nome dele: John Cassavetes. Pronuncie em voz alta e veja o quanto imponente, nome de rock star. Bom, em linhas bem gerais que é pra não contar o filme, Amantes mostra o reencontro de um homem e uma mulher de meia idade que estão vivendo momentos não muito felizes de sua vida. E isto, pra mim, foi e é o melhor do filme: importa menos o que está acontecendo COM eles do que aquilo que acontece ENTRE eles. Eles podiam ser assaltantes de bancos e ter matado pessoas, terem terminado um casamento de anos por causa de uma toalha molhada na cama ou simplesmente terem seus cachorros atropelados que não faria a menor diferença. Não é preciso entender exatamente o que se passa na vida deles naquele momento para compreender o reencontro e para sentir a importância desse reencontro. O filme é bom pela forma como mostra o quanto duas pessoas se gostam e o quanto elas podem se entender sem dizer nada uma para a outra. E, puxa vida, mostrar sutilezas como a cumplicidade em um olhar ou em um sorriso, no cinema, não é algo fácil de fazer. Amantes consegue porque além de bons e objetivos diálogos e ações simples e contundentes, tem dois atores que se expressam de forma primorosa, principalmente, no quesito cumplicidade: John Cassavetes, sim, o próprio diretor, e Gena Rowlands, mulher dele, aliás. Não se sabe o que exatamente está acontecendo com os dois ou mesmo entre os dois, mas é possível perceber o que eles estão sentindo, como se sentem em relação ao outro e ao que acontece em suas vidas que antes estavam separadas, mesmo que o público não entenda exatamente o que diabos se passou. A melancolia do reencontro é de cortar o coração. Além disso, os atores transmitem tão bem o que os personagens estão sentindo que, em alguns momentos, não se escuta nem a respiração do público, que, no caso, era eu e mais o anfitrião. Por fim, importante dizer que achei a escolha do nome EM PORTUGUÊS perfeita: nenhum outro adjetivo (ou seria substantivo?) é tão eficaz para designar uma relação de cumplicidade quanto amantes, nem uma relação tão bem representada como em Amantes. Que me desculpem os ficantes, namorados e maridos…

Até onde sei, Amantes só tem na Vivi Vídeos e em VHS: http://www.vivivideo.com.br/