Enquanto isso

Enquanto não sou chamada por um grande jornal para escrever sobre cultura e afins (sonho meu, sonho meu), vou exercitando a escrita por aqui mesmo, num site muy diver do qual me tornei colaboradora, o Tropecei Nisso Aqui. Minha segunda postagem, sobre o Museu do Sexo de New York e a fotógrafa Autumn foi publicada hoje, 30.04, e pode ser lida aqui. Já a minha primeira aparição, também sobre arte (ui, que chique) pode ser lida aqui; é sobre a galeria on-line baixocalão. Aparece por lá. Uma hora dessas eu volto a escrever por aqui também, juro.

ps: De LAMBUJA, uma foto da Autumn, cujo nome, aliás, quer dizer OUTONO. Bem propício para o nosso clima, nénão?


Lacuna Corporation

Com freqüência, as pessoas me perguntam por que eu guardo tanta coisa. No processo de desencaixotamento da mudança, eu encontrei coisas absurdas, tipo um texto que escrevi para uma aula do Seben (Paulo Seben, o poeta) em que a Julia e a Karine conversavam sobre uma festa que a Julia tinha ido comigo e a Karine não. O diálogo era tão real que, quando mostrei pra elas, nós três ficamos na dúvida, nos perguntando se aquilo era a descrição de uma situação similar à realidade ou se era simplesmente uma transcrição da verdade. A Julia matou a charada dizendo que ela nunca perguntaria para a Karine como é uma pessoa de peixes porque ela conhece as características do signo. Outra coisa que achei foi um texto de uma outra amiga, algo sobre televisão, educação e publicidade (acho que era isso) escrito para a terceira cadeira de português da faculdade, no tempo em que ela não ignorava a existência do corretor ortográfico do word. Além disso, também achei uma carta que a Julia me escreveu na folha timbrada da marca de camisetas que criamos no segundo semestre e na qual ela lamentava que eu ia mudar de curso e trocar a Fabico pela Psicologia. Eu podia ficar a madrugada inteira contando tudo que eu encontrei desde que me mudei, mas não vou. Mas, tipo, eu nem lembrava mais de que tinha realmente pensando em mudar para a Psicologia em 2004, e muito menos de que eu tinha chegado ao ponto de me inscrever para o vestibular de 2006.

Foi depois desse e de outros episódios que cheguei a conclusão de que guardo tanta coisa para lembrar de mim mesma: do que fui há alguns anos, o que queria, o que pensava e o que sentia. E isso tudo também me fez pensar sobre as pessoas que jogam tudo aquilo que lembra outra pessoa no lixo. Tipo, ex-alguma coisa, saca? Eu até entendo que algumas mensagens do celular sejam apagadas, algumas camisetas não devolvidas doadas e algumas fotos guardadas, isso é realmente necessário algumas vezes, mas me pergunto o quão saudáveis e o quão eficazes são atitudes desse naipe. O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças tá aí para provar que tem coisas que não podem ser apagadas. Amor me parece uma delas, entre algumas outras.

Sabe, mesmo que tudo vá pro lixo: fotos, cartas, roupas, cds e livros, que se perca totalmente o contato com a tal pessoa - ainda que em tempos de orkut isso seja praticamente impraticável - é impossível deletar alguém. Pode-se tentar (e às vezes conseguir) tirar alguém da vida diária, mas da própria história, e às vezes, de si mesmo, não dá. Pode-se passar muito tempo sem pensar numa pessoa, sem ver a pessoa e até mesmo sem falar o nome dessa pessoa, mas em algum momento, por um instante que seja, algo vai te fazer lembra daquela pessoa simplesmente pelo simples fato de que ela faz parte do teu passado. E foi um pouco pensando sobre isso que fui ver o decepcionante O Passado - sobre o qual eu escreverei depois que ler o livro (eu devia ter desconfiado de um filme do Hector Babenco com atores espanhóis, incluindo o Gael): o quão prejudicial o passado pode ser para o futuro e o quão prejudicial o futuro pode ser para o presente?

Na época em que vi o filme, não cheguei a conclusão nenhuma, só fiquei indignada, visto que é bem ruizinho. Hoje, depois disso tudo aí em cima relatado, penso que as lembranças só são prejudiciais se elas forem transformadas em esperanças também: esperança de que, de alguma forma, o passado se repita: que uma viagem seja tão boa quanto foi aquela outra, que um amor seja tão grande como foi aquele, que uma festa seja tão divertida quanto aquela que nós três fomos, ou não. O passado nunca vai ser apagado, guardemos ou não seus vestígios, pois ele sempre existirá na memória (ao menos até uma certa idade). Logo, me pergunto: vale a pena não guardar certas coisas, ou pior, tentar destruír o que passou colocando tudo no lixo? Talvez não seja assim tão simples e eu esteja numa madrugada Pollyana, mas é que é tão mais divertido encontrar uma foto e sorrir sozinho sentado no chão do quarto. Se não for por isso, ao menos que seja pelo bem dos nossos biógrafos. Aqui, um print da logomarca que eu e as gurias citadas lá em cima criamos. Bom dia.  

                                   

08.03

Pela primeira vez em 24 anos (tá, exagerei), não recebi NENHUM parabéns pelo fatídico Dia da Mulher. Menos ainda rosas vermelhas ou Sonho de Valsa grampeado num papel com uma mensagem brega escrita em itálico e uma moldura de corações vermelhos em volta…

Obrigada por me pouparem, homens do meu Brasil. =)

achados e perdidos

Procura-se o dono desse CD:

1- A fond farewell - Elliot Smith
2- April fools - Rufus Wainwright
3- Yea heavy and a bottle of bread - Bob Dylan
4- You aint going nowhere - Bob Dylan
5- Grace cathedral hill - The Decemberists
6- We both go down togheter - The Decemberists
7- The rollercoaster ride - Belle & Sebastian
8- The trip - Donovan
9- I hate rock and roll - Jesus & Mary Chain
10- You set the scene - Love
11- The hardest button to button - The White Stripes
12- Into the sun - Sean Lennon
13- The bucket - King of Leon
14- God only knows - The Beach Boys
15- Something 4 the weekend - Super Furry Animals

Eu simplesmente não faço IDÉIA de onde ele saiu.
Só sei que ele é simplesmente GENIAL.

Sede de

Enquanto ela beija sua bochecha macia, ele fecha os olhos. Ao abri-los, procura pela boca dela, que foge. Os dedos finos que se arrastam entre os fios grossos de seus cabelos agradam. A cada movimento das mãos, ele inclina a cabeça mais para trás e o corpo mais para frente em busca do dela. Ao se esquivar, chegando às costas, ela sente ambas as respirações se acelerarem, mas se controla para que a tentação do prazer não vença o esforço do afeto. Mas tão logo os lábios, línguas e salivas se encontram, todos os movimentos se tornam um só, simultâneos. Ao simples toque, a pele ganha aderência. O suor que reluz nos corpos também é responsável pelo odor que impregna o ar, aumentando o apetite de ambos. O arfar dela dita o ritmo da ação. E as poucas palavras sussurradas catalisam o ímpeto dele, que só cresce, cresce e cresce.

A temperatura dos corpos começa a voltar ao normal. Ela levanta em busca de um lençol ou algo que a cubra; ele se dirige à lixeira mais próxima e retorna ainda ofegante. Apenas os braços se entrelaçam. Ela pensa em pedir água; ele em se oferecer para buscar. Nada. A garganta seca. As pálpebras fecham. Ambos dormem no mesmo silêncio de outrora, cada qual com a cabeça num travesseiro.

panda-juca-bala

Se eu tivesse um twitter…

Se eu tivesse um twitter (coisa que, na verdade, nem sei direito como funcia…), eu publicava as seguintes frases no dia cansativo de hoje (mais estresse = mais bobagens).

Acompanhe:
(em ordem cronológica de brotamento, da mais recente para aquela que teve chance de ser não ser publicada…)

1. Eu queria namorar um Pedro só para cantarolar pra ele: "Pedro onde se vai eu também vôôô…". E, quando a gente terminasse, eu cantarolaria: "mas tudo acaba onde começôôô"…

2. No caminho pra casa, começo a sentir um cheiro PUTREFATO e penso comigo: "bah, tem alguma coisa muito podre por aqui". Mais alguns passos e me dou conta de que do meu lado esquerdo está iniciando a super quadra do Cemitério São João…

3. Sobre publicitários (diretores de arte, em especial): quanto mais atalhos do teclado do mac souberes, mais sexy serás… ARRAM.

Tá, deu. =P

Ah, a juventude…

Eu torço por aquele jovem que deposita toda sua esperança de ser um adulto feliz em sua própria juventude. eu torço tanto que desejo profundamente que aquela viagem para morar fora do país que ele fez porque é isso que todo jovem deve fazer seja realmente inesquecível. que o tempo que ele viveu sozinho porque é isso que se espera que um jovem faça durante sua juventude tenha valido a pena, inclusive os momentos de solidão. que aquela pós-graduação que ele começou porque é isso que as pessoas esperam de um jovem que quer crescer na vida tenha verdadeiramente feito a diferença, de preferência no bolso. que todas as horas de sono dedicadas ao trabalho sejam recompensadas na vida adulta com uma cama de casal bem quentinha. que todas aquelas festas que ele frequentou simplesmente por ser jovem tenham sido divertidíssimas, ao extremo. que todos aqueles porres que só os jovens podem tomar tenham resultado apenas em histórias engraçadas para contar para filhos e netos, nunca em arrependimentos. que todos aqueles amores do qual ele abriu mão porque o que se espera de um jovem é que ele não se comprometa cedo sejam substituídos por um  grande, verdadeiro e eterno amor.

torço para que a esperança na juventude desse jovem seja a última a morrer e que um dia ele não se pergunte se, talvez, não tenha sido jovem demais, por tempo demais.

ps: post da categoria "das coisas que só fazem sentido pra mim". =)

Links

Nunca fui fã do Rodrigo Amarante. Acho ele bom letrista, um cara charmoso, mas só. Só até ler essa entrevista na TRIP e começar achar o cara realmente interessante. É bom saber que existem pessoas com essa profundidade, que mais do que gostar daquele e não desse gênero musical, desse ou daquele gênero literário, ou ainda cinematográfico, têm opiniões próprias do que é a vida, a morte, o destino, o sonho, a fama, enfim… Há quem diga que essa entrevista é fake, principalmente porque o Amarante afirma que não ganhou dinheiro com o Los Hermanos como muitos imaginam. Eu, com minha ingenuidade que me é característica, prefiro acreditar não só que o que ele diz a respeito dessa fase é verdade, como prefiro acreditar que ainda existem pessoas como ele para conhecer no mundo e para filosofar em conjunto numa mesa de bar.

Além desse link, um textinho trivial meu no site do Jornal Já, que conta também com matérias supimpas da minha amiga Daiane, que não tem blog.

Caos Calmo (2008)

O primeiro filme que vi em 2009 foi o italianíssimo Caos Calmo (2008), de Antonio Grimaldo. Antes de tudo, é preciso dizer que nunca tinha visto (ou não me lembro) um filme com o tal Nani Moretti, um cara que, pra mim, já entrou na lista dos melhores atores do mundo. De rosto bastante comum, típico italiano, o cara é ABSURDAMENTE expressivo. Não do tipo Jim Carey, cheio de caretas, mas de uma maneira bastante natural, verossímel e, o melhor de tudo, profunda. Mas não é dele que eu ia falar. Até porque nem posso, vi apenas um filme com ele que, aliás, fiquei sabendo, é diretor também. Então que depois de ver o filme e de digerí-lo bem, inclusive lendo resenhas sobre, cheguei a conclusão de que vi no filme aspectos completamente diferentes do que viu a maioria, aos menos dos críticos.

Enquanto quase todos chamam atenção para a reação calma do personagem, Pietro, ao caos da situação em que ele se encontra, qual seja, de ter se tornado víuvo da noite pro dia e ter uma filha de dez anos para criar, eu acredito que o caos calmo não é isso, ou SÓ isso. Sim, perder a mulher e ter uma filha para cuidar sozinho deve ser algo caótico, mas eu acho que a reação calma dele não é uma forma de fazer o luto, como diria nosso amigo Freud, mas também de ser sincero consigo mesmo. Ainda que eu tenha perdido o início do filme por questões de pipocas e coca-colas rolando pelo chão do cinema, acredito que a calma do personagem frente ao caos vai muito do além da superação da viuvez ou coisa que o valha. Óbvio que perder a mulher com que se é casado e se tem uma filha deve ser terrívelmente doloroso, e que para muitos pode parecer o fim da vida, mas, se ele já estava distante da família, e se ele já não a amava mais, como o filme deixa a entender em algumas partes, a calma não pode vir disso? 

Não que ele não sinta falta dela, que ele não sofra com a morte dela. Eu apenas acho que sim, a forma dele ELABORAR o luto é através da calma, tanto que ele deixa de ir para o escritório para ficar esperando a filha na praça em frente à escola, enquanto vê a vida passar sentado num banco, interagindo apenas com as pessoas que vão até lá ou até ele. A questão é que além de uma forma de reagir à perda, a calma dele é a calma de quem perdeu alguém importante, mas que também não era aquilo tudo, ó, amor da minha vida, não vivo sem ti. De início, pode parecer doloroso pensar que ele não sente tanto assim a morte da mulher mas, veja bem, por que ele teria que se desesperar se ele já não a amava mais, se o casamento já não dava certo? O grande soco no estômago do filme, pra mim, foi a sinceridade do personagem quanto ao seu sentimento. Pietro sofre muito mais preocupado com sua filha do que com a sua própria perda, no caso, da esposa. Nem overreacting, nem drama queen. Não é porque as pessoas esperam que se sofra numa situação dessas que efetivamente se vai sofrer. A calma dele está de acordo com o seu próprio caos.